VIROSES EMERGENTES EM BATATA

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Autores: Fernando Javier Sanhueza Salas
Renata Maia Garcêz

A batata (Solanum tuberosum L.) é uma hortaliça utilizada pelos povos americanos desde o período pré-colombiano. Quando os espanhóis chegaram à América, a batata era a base da alimentação desses povos há mais de 8.000 anos. Posteriormente, foi levada à Europa no final do século XV onde, por meio de melhoramento, desenvolveram-se algumas variedades que até hoje são cultivadas. O melhoramento consiste na produção de variedades com algumas características exigidas pela cadeia produtiva e mercado consumidor, tais como: melhor qualidade culinária, maior produtividade e maior resistência a pragas e doenças. Tanto do ponto de vista do produtor como do consumidor, a batata ocupa um lugar de destaque na alimentação mundial, devido as suas propriedades nutricionais e grandes áreas cultivadas. No Brasil, o cultivo de batata produz 3.550.510 toneladas e ocupa cerca de 147.719 ha em área de produção.

Apesar da obtenção de variedades resistentes, a batata é suscetível a muitos patógenos e pragas, sendo que muitos deles são veiculados através de material de propagação. Um dos princípios básicos de controle de doenças de plantas é que no plantio inicial, tanto em campos de produção como em casas-de-vegetação, seja empregado material propagativo (bulbos, bulbilhos, estacas, rizomas e tubérculos) livre de patógenos originando plantas comprovadamente sadias. O Brasil ainda importa a maior parte da batata-semente para implementação da cultura, o que aumenta o risco de patógenos exóticos. Isto se deve a melhor qualidade dos tubérculos importados e ao pouco investimento brasileiro na produção nacional de batata-semente.

Entre as doenças que afetam a batata, cerca de 40 são causadas por vírus e apenas 17 foram descritas no Brasil. Destacam-se em ordem de importância e incidência o PVY (Potato virus Y) e o PLRV (Potato leafroll virus), embora outros vírus, como o PVX (Potato virus X) e PVS (Potato virus S), também apresentem infecções, em menor escala. Atualmente, a legislação brasileira delimitou tabela de níveis de tolerância (Instrução Normativa n.12, de 10/6/2005) para esses 4 vírus considerados pragas não-quarentenárias regulamentadas em batata-semente a ser produzida, importada e comercializada no país.

As doenças causadas por vírus não possuem controle e, em campo, quando se somam alguns fatores ambientais (temperatura, umidade, vento) à disponibilidade de plantas fonte de infecção e a presença de insetos-vetores, ou seja que “transportam” a doença de plantas doentes a sadias, pode se dar início a uma epidemia resultando em perdas drásticas à produção. Uma das soluções aplicadas no mundo inteiro para minimizar o trânsito de fitovírus é a fiscalização fitossanitária desses materiais transportados a longas distâncias, no momento da sua chegada ao país importador, limitando ao máximo o número de fontes de contaminação em áreas produtivas, pelo uso de material de propagação certificado.

Durante os últimos 5 anos, esse trabalho vem sendo desenvolvido no Laboratório de Fitovirologia e Fisiopatologia (LFF) do Instituto Biológico (IB), em São Paulo, que tem como proposta o estudo da incidência de vírus em material de tubérculos importados de variedades introduzidas no Brasil. O trabalho foi iniciado em 2004, utilizando-se kits de detecção para esses cinco fitovírus por meio de testes sorológicos, similares aos testes realizados para vírus humanos e animais. A metodologia padronizada consiste em testes de germinação da batata-semente, inspeção visual, inoculação mecânica em plantas indicadoras e testes sorológicos (DAS – ELISA) utilizando-se um painel de antissoros contra os vírus: PVX, PVY, PVS, PLRV e PVA (Potato virus A), a partir de plântulas (Fig. 1).

Fig.1 Metodologia empregada no LFF/IB para detecção e interceptação de fitovírus em batata-semente importada.

Convém destacar que o PVA, apesar de não estar presente na lista de pragas e doenças sugerida pelo Ministério de Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA), foi incorporado ao painel de antissoros utilizado pelo LFF/IB. Trata-se de um fitovírus de difícil detecção, pois induz sintomas brandos ou infecção latente. No entanto, em 1973 já havia sido detectado em áreas de produção. O PVA é mais severo quando em infecção mista com outros vírus (PVY e PVX) e causa sintomas e perdas na produção. Além do antissoro contra o PVA outros dois já estão sendo utilizados no diagnóstico: o Andean Potato Latent Virus (APLV) e Andean Potato Mottle Virus (APMV), pragas quarentenárias que não podem entrar no País.

No período 2007-2009, o recebimento de amostras para análise triplicou, visando atender a demanda de inúmeros produtores em todas as zonas de cultivo no Brasil, incluindo aquelas importadas e enviadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Fig. 2). Os principais países exportadores são europeus (Alemanha, Escócia, França e Holanda), mas há representantes do novo mundo (Argentina, Bolívia, Chile, Canadá e Estados Unidos).

Fig.2 Número de registro mensal de amostras de batata-semente importada, infectadas por vírus e total de amostras por ano.

Os métodos sorológicos de detecção, no caso desses vírus específicos da cultura de batata, são de grande importância já que se trata de uma ferramenta complementar aos testes biológicos e a inspeção visual dos sintomas (Fig. 3). Com os resultados dos testes sorológicos realizados para indexar o material importado para áreas produtoras, foi possível interceptar dois vírus listados como quarentenários: o PVA e o APLV, este último relatado pela primeira vez no Brasil. Além disto, foram detectadas diversas infecções mistas e dois casos de infecção tripla. No entanto, os resultados evidenciaram uma baixa taxa de infecção nos lotes avaliados. Este processo de melhoria faz parte do Programa de Qualidade do IB em busca da certificação da ISO 9001:2000 de seus laboratórios de análise fitossanitária.

Fig.3 Sintomatologia apresentada por plantas de S. tuberosum L. após inoculação mecânica: a)clareamento de nervuras; b)mosaico e redução de área foliar; c)mosqueado e bolhosidades; d)amarelecimento; e)mosaico e clareamento de nervuras; f)necrose de nervura

Fig.4 Placa de ELISA apresentando resultados positivos (amarelo) para material de batata infectado.

Bibliografia sugerida

Daniels, J; Pereira, A.S. O cultivo da batata na região sul do Brasil. Brasília: Embrapa Informação Tecnológica, 2003. 567p.
Figueira, A.R. Viroses da batata e suas implicações na produção de batata-semente no estado de Minas Gerais: histórico do problema e soluções. Summa Phytopathologica, v.21, n. 3/4, p.268-269, 1995.

Salas, F.J.S.; Garcêz, R.M.; Garcia, S. Interceptação de vírus em amostras importadas de batata-semente (Solanum tuberosum L.) no período de 2004 a 2007. Revista Batata Show, n.4, p.1-4, 2007. Disponível em http://abbabatatabrasileira.com.br/batatashow4/resumos

Salas, F.J.S.; Garcia, S.; Chagas, C.M.; Moraes, C.A.P. Detecção do Andean potato latent virus(APLV) em batata semente (Solanum tuberosum L.) importada. In: XXX Congresso Paulista de Fitopatologia, 2007, Jaboticabal. Summa Phytopathologica, v.33. p.41, 2007. (Suplemento)

Salas, F.J.S.; Lopes, J.R.S.; Fereres, A. Resistência de variedades comerciais de batata à transmissão do Potato virus Y pelo vetor Myzus persicaeArquivos do Instituto Biológico, v.71, n.2, p.166-173, 2004.

Souza Dias, J.A.C. Viroses de batata e suas implicações na produção de batata semente no Estado de São Paulo. Summa Phytopathologica, v.21, p.264-266, 1995.


Sobre o autor: Fernando Javier Sanhueza Salas possui Licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (1990) é Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (1991), possui o título de Mestre em Ciências área concentração:Entomologia pela Universidade de São Paulo- Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (1997) é Doutor Em Ciências Área Concentração Entomologia pela Universidade de São Paulo Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (2004). Realizou DSW junto ao Centro de Ciências Medioambientales (Madri, Espanha). É pesquisador científico do Instituto Biológico/SP pertencente à Secretaria De Agricultura e Abastecimento. Tem experiência na área de Agronomia, com ênfase em Transmissão de Fitopatógenos, atuando principalmente nos seguintes temas: fitovírus, transmissão de fitovírus por artrópodes, epidemiologia, métodos de manejo, batata, caracterização e potyvírus.
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/5755643017353714 
Contato: salas@biologico.sp.gov.br

Renata Maia Garcêz atualmente é Estagiaria do Instituto Biológico, Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Sanidade Vegetal.
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/1634373997095013

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