O CUIDADO NO PENSAMENTO DE LEONARDO BOFF: TERAPIA PARA A SOCIEDADE LÍQUIDO-MODERNA.

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Autor: Lafim Rafael Monteiro[1]

Email: Catequistalafim@hotmail.com

 

Resumo: A presente pesquisa desenvolve uma abordagem do “Cuidado” na concepção de Leonardo Boff como uma alternativa para a existência no cenário líquido-moderno. Mediante a revisão bibliográfica do sociólogo Bauman, busca-se compreender as possíveis causas da liquedificação da sociedade moderna, caracterizada pela cultura do consumo, individualismo, competitividade, descarte e velocidade, e, propõe-se o “modo-de-ser-cuidado” como um caminho para a sociedade sólida. A cultura do descartável só tem espaço em nosso meio, na medida em que abandonamos o “Cuidado” enquanto reparação e cura. Na opinião de Boff (1999), a existência só terá sentido se considerar o “Cuidado” uma nova lógica de convivência. Enquanto na sociedade líquido-moderna a solução dos problemas segue a lógica do descarte, na sociedade sólida será através de reparação, desvelo, compaixão, corresponsabilidade.

Palavras chaves: Leonardo; Cuidado; líquido-moderno; neoliberalismo; sociedade.

Abstract: This research develops an approach of “care in Leonardo Boff conception as an alternative to existence in the existence in the modern liquid scenario. Mediating the biologist review of Bauman sociologist, seeking the possible causes of the liquor of modern society, characterized by the culture of consumption, individualism, competitively, discarded, discarded and speed, and, propose to be – be – care “as a way to solid society. The culture of disposable only has room in our midst, as we abandon “care while reparation and healing. In Boff’s opinion, it S only gonna be felt if you consider “care a new logic of belief. While in the liquid society – modern, the solution of problems follows the logic of discarte, in solid society will be through reparations, descended, compassion, correspondence.

Keywords: Leonardo; Caution; liquid-modern; neoliberalism; society.

 

INTRODUÇÃO

 

Na presente pesquisa nos propomos a apresentar a concepção de Leonardo Boff[2] sobre o cuidado, como proposta para a minimização dos impactos do cenário líquido-moderno em forma de diálogo com o pensamento de Bauman[3] das causas à possível saída da crise pós-moderna. Dos vários problemas que suscitam a urgência do cuidado, como remédio, nos ocuparemos da vida humana (Vida Líquida)[4] e da precariedade dos laços humanos (Amor Líquido)[5].

Em seus escritos, Leonardo Boff, reconhece que a modernidade e seu projeto de tecnociência[6] trouxe muitas conquistas e melhorias para a vida humana, mas contrapõe que a mesma modernidade é a causa da vulnerabilidade da vida e das relações humanas devido ao modo como as sociedades contemporâneas têm administrado os recursos naturais, entre outros bens. Toda distribuição de riquezas que deixa de lado a devida observância do cuidado, coloca a vida humana em situação de perigo. Tal descuido estaria na linha das causas da liquidificação da modernidade. Se tivéssemos o devido cuidado nas nossas relações entre seres humanos e com os demais seres e entes que nos rodeiam, certamente alguns lugares da humanidade e certas pessoas não teriam experimentado a fome, a violência, a miséria, as guerras, o gigantesco fenômeno migratório e as ameaçadoras epidemias, em tais proporções, conforme registradas nos últimos tempos.

Nessa perspectiva, nota-se a urgência do resgate do ethos cuidado como nova postura social, porque de acordo com Boff (1999), para tudo o que tem vida e o que existe e coexiste no Cosmo: uma árvore, um animal, uma criancinha, um idoso, etc., tem o cuidado como condição necessária para sua continuidade de vida e existência no universo. Segundo o mesmo autor,

 

O cuidado entra na natureza e na constituição do ser humano… Sem o cuidado, ele deixa de ser humano. Se não receber cuidado desde o nascimento até a morte, o ser humano desestrutura-se, definha, perde sentido e morre. Se, ao largo da vida, não fizer com cuidado tudo que empreender, acabará por prejudicar a si mesmo e por destruir o que estiver à sua volta […]. O cuidado deve ser entendido na linha da essência humana (BOFF,2004. p. 34).

 

Diante dessa realidade de liquidificação da sociedade moderna, na presente pesquisa, nos basearemos na necessidade de do cuidado como novo “modo-de-ser-no-mundo”, a fim de remediar os problemas que afligem a nossa geração num gesto de compaixão pelas gerações futuras.Outro sistema que situe a vida acima do lucro é possível. Trata-se de um novo sistema pós-liberal que dê primazia à humanidade, que proteja a vida de todos os seres viventes e a vida ecológica.

 

1 – O CONCEITO DO CUIDADO NA CONCEPÇÃO DE LEONARDO BOFF.

De acordo com o dicionário Houaiss da língua portuguesa (HILANA, 2014, Apud VIEIRA, 2016, p. 47), cuidado ou cuidar significa “cogitar, pensar, ponderar, atentar para prestar atenção em preocupar com, responsabilizar-se por algo ou alguém, ter muita atenção para consigo mesmo”. Mas para Boff (1999), o cuidado provém do latim “cura, cogitare-cogitatus” que carrega o mesmo valor de cogitar, dar atenção, colocar interesse, desvelo e preocupação. O autor sustenta ainda que “cuidar é mais que um ato: uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de desenvolvimento afetivo com o outro”. (BOFF, 1999, p.33).

Martin Heidegger (1889-1976)[7]defende que “do ponto de vista existencial, o cuidado se acha apriori, antes de toda a atitude e situação do ser humano, o que sempre significa dizer que ele se acha em toda a atitude e situação de fato” (citado por BOFF, 1999, p.34). Esta constatação deixa claro que o cuidado não só está na origem do ser humano, como também faz parte de toda sua natureza e constituição, conforme declarou o nosso autor: “o cuidado entra na natureza e na constituição do ser humano. O modo de ser cuidado revela a maneira concreta como é o ser humano” (BOFF, 1999, p.34). E se é assim, como explicar a fluidez e liquidificação que são características da crise pós-moderna ou do mundo neoliberal?

 

2 – RADIOGRAFIA DA “SOCIEDADE LÍQUIDO-MODERNA” E SUAS CAUSAS.

Sociedade líquido-moderna é uma terminologia usada pelo sociólogo polonês para designar as características do mundo capitalista neoliberal onde tudo flui e nada é consistente. Conforme Bauman,

 

“Líquido-moderna” é uma sociedade em que as condições sob as quais agem seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas das formas de agir. A liquidez da vida e a da sociedade se alimentam e se revigoram mutuamente. A vida líquida, assim como a sociedade líquido-moderna, não pode manter a forma ou permanecer muito tempo (BAUMAN, 2007, p.7).

 

De acordo com o mesmo pensador, a regra universal em uma sociedade líquido-moderna é a cultura do descarte:

 

Numa sociedade líquido-moderna, a indústria de remoção do lixo assume posições de destaque na economia da vida líquida. A sobrevivência dessa sociedade e o bem-estar de seus membros dependem da rapidez com que os produtos são enviados aos depósitos de lixo e da velocidade e eficácia da remoção dos detritos (BAUMAN, 2007, p.9).

 

Neste cenário líquido moderno, não somos nós os donos do mercado, mas é o mercado que virou nosso proprietário. Nós nos adequamos ao mercado e não o contrário. Não somos senhores do consumo, mas o consumo é senhor dos seres humanos. A sociedade neoliberal ou capitalista reduz o ser humano a uma maquina de produzir ou de consumir. Neste tipo de padrão definido pelo novo sistema, o que confere a identidade ao ser humano, não são os valores fundamentais da nossa existência como seres humanos, mas é a sua participação no mercado de consumo.

Os membros da sociedade neoliberal são forçados a se adequarem ao consumo, caso contrário perdem a sua identidade e consequentemente são descartados. Uma sociedade de consumo “é uma sociedade que julga e avalia seus membros principalmente por suas capacidades e sua conduta relacionadas ao consumo” (BAUMAN, 2007, p.108) e a incerteza diz respeito ao fato de que os papéis podem ser revertidos com muita frequência. O consumidor pode virar objeto de consumo e vice versa e ambos podem cair na lata de lixo.O sociólogo polonês considera o fenômeno neoliberal como uma “síndrome consumista”:

 

É realmente uma síndrome: uma série de atitudes e estratégias,disposições cognitivas, julgamentos e prejulgamentos de valor, pressupostos explícitos e tácitos variados, mas intimamente interconectados, sobre os caminhos do mundo e as formas de percorrê-los, as visões da felicidade e as maneiras de persegui-las (BAUMAN, 2009, p.109).

 

Sem dúvidas, a síndrome consumista afetou todos os membros das sociedades neoliberais, pois todos nós temos vontade de consumir, ou seja, todos atuamos no mercado de consumo. Alguns como consumidores, outros como produtores, outros ainda como produto de consumo e em última instância, outros como lixo descartado pelo sistema. Assim é o espírito do sistema neoliberal conforme salienta Sella (2002):

 

O neoliberalismo é um sistema econômico imposto à humanidade através de sua política e de seu horizonte cultural e religioso. Trata-se de uma ideologia que se concretiza, sobretudo, na estruturação de uma economia voltada somente à vantagem individual, ou seja, ao lucro e à sua maximização, situando tudo numa função instrumental e transformando qualquer ser vivente, até a pessoa humana, em mercadoria a serviço do lucro (SELLA, 2002, p.47).

 

O neoliberalismo é totalmente um sistema injusto e desumano na medida em que coloca o lucro acima da vida e o consumo sobre qualquer outro valor. O neoliberalismo é responsável pela má distribuição da economia mundial, pela destruição da natureza, da cultura, da política, da religião e consequentemente da sociedade em geral. É um sistema que sacrifica e marginaliza os empobrecidos e excluídos.

De acordo com o teólogo Clodovis Boff, (1998, p. 81), “os excluídos são aqueles que sobram do sistema formal, os que não cabem na sociedade oficial, os inúteis, os desnecessários”. Clodovis Boff (1998) sublinha que “o excluído começa por ser excluído do mercado formal: não consome (para atender as suas necessidades básicas) nem vende (nem mesmo o que tem de melhor: sua força de trabalho). Essa é a exclusão fundamental e determinante da exclusão social mais ampla” (BOFF, 1998, p. 106).

Os excluídos do mercado neoliberal são equiparados ao lixo que deve ser banido da sociedade. Se tratar de seres humanos, se aniquila a sua existência física por meio da morte que pode ser morte morrida ou morte matada. Segundo Sella (2002), a morte morrida acontece quando o excluído não tendo condições de viver, passa fome, fica doente e acaba morrendo. Morte matada é quando a vida do pobre marginalizado é eliminada pela violência gerada pela gigantesca desigualdade social.

Muitas vidas humanas são suprimidas da existência por motivos banais. Em nossos dias, uma briga de transito é motivo suficiente para que alguém deixe de existir neste mundo. Não são poucas as pessoas que tiveram que perder sua vida pelo simples fato de furar a fila do banheiro, pela cor de sua pele, pela orientação sexual, entre outros motivos que poderiam ser superados por meio de um diálogo sereno.

A sociedade líquido-moderna deixa evidente que as nossas relações, enquanto seres humanos são precárias. Ninguém se preocupa pelo destino do próximo, muito menos das outras expressões de vida e da natureza. A terra está ameaçada e consequentemente a sustentabilidade da vida das futuras gerações é uma questão totalmente incerta.

Tanto Boff quanto Bauman desencorajam as ofertas do sistema neoliberal, e, consideram a pós-modernidade como uma era de crise pelo fato de que o mercado de consumo provoca muitos estragos nas fontes dos recursos naturais, insegurança frente a onda competitiva gerada pelo neoliberalismo, medo de ser descartado por não produzir bens e por não participar no mercado de consumo regularmente.

A crise do mundo contemporâneo é uma crise de valores, dado que os fundamentos éticos são questionáveis. De acordo com o pensador brasileiro, “é difícil para a grande maioria da humanidade, saber o que é correto e o que não é. Esse obscurecimento do horizonte ético redunda numa insegurança muito grande na vida e numa permanente tensão nas relações sociais” (BOFF, 2003, p.27). Segundo Boff, o fenômeno neoliberal representa um grande retrocesso, porque,

 

[…] o desenvolvimento social visa melhorar a qualidade da vida humana enquanto humana. Isso implica em valores universais como vida saudável e longa, educação, participação política, democracia social e participativa e não apenas representativa, garantia de respeito aos direitos humanos e de proteção contra a violência, condições para uma adequada expressão simbólica e espiritual (BOFF, 2004. p.138)

 

Desse modo, está muito claro que uma sociedademarcada pela competitividade, pela exploração do ser humano pelo ser humano; pelo consumo desenfreado, pelo individualismo, se encontra muito distante do verdadeiro progresso. Uma sociedade assim, é sem dúvidas uma sociedade doentia. O espírito de competição não constitui a natureza humana, pois este reforça comportamentos egoístas que são completamente venenosos para a vivência coletiva. Já lembrava Aristóteles (384-322 a.C.) que por si só o ser humano não pode realizar suas aspirações nem satisfazer suas necessidades; pelo que precisa da companhia dos outros, seus semelhantes. Vale ressaltar que não se trata de uma companhia de adversidade, mas de cooperação, de complementaridade.

Infelizmente, com o neoliberalismo, a sociedade deixou de ser um lugar de realizações do ser humano, e, tornou-se um estádio onde ‘todos correm e um só vencedor recebe o troféu’. E, de acordo com Bauman (2007), o verdadeiro troféu nessa maratona é a garantia (temporária) de ser excluído das fileiras dos destruídos e evitar ser jogado no lixo.  O cansaço da competição gera a angústia, o tédio de viver, e a depressão que consequentemente força os derrotados na competição a optarem pelo suícidio, conforme eclarece Clodovis Boff:

 

o estado da angústia existencial, na medida em que domina o espírito e se prolonga no tempo, pode degenerar em tédio. Por sua vez o tédio prolongado se degrada às vezes em depressão, que já é uma patologia, a qual pode decair, por sua parte, para formas de patologia mais graves, como a tendência ao suicídio. Temos pois a sequência: angústia => tédio => depressão => vontade de nada ou de morte (BOFF, 2014, p. 187).

 

Para os resistentes da humilhação de ser vencidos nessa competição, a vida perde o seu sabor natural. Aquela estranha energia que nos deixa de pé cada manhã e nos faz correr ao longo do dia nesse estádio, se apaga lentamente. É propriamente isso que Bauman chama de “vida líquida”. A vida líquida, conforme o sociólogo é uma vida vulnerável, vivida em condições de incerteza constante, em uma sociedade veloz.  “As preocupações mais intensas e obstinadas que assombram esse tipo de vida são os temores de ser pego tirando soneca, não conseguir acompanhar a rapidez dos eventos, ficar para trás”. (BAUMAN, 2007, p.8), porque numa sociedade líquido-moderna a vida está condenada a não parar.

Outro sintoma do mal-estar de nossa geração líquido-moderna diz respeito à precariedade de nossas relações que mudaram de reais para virtuais através das redes sociais. As redes sociais, são sem dúvidas, uma grande revolução no campo da comunicação, que trouxeram consigo muitos avanços para a comunicação humana. Elas revolucionaram o sistema de comunicação tradicional. “A praticidade e a novidade das redes sociais, além do acesso livre a qualquer tipo de informação de qualquer parte do mundo, é a possibilidade de gravar e fazer cópia de tudo aquilo que é procurado e encontrado”. (SELLA, 2002, p.45). Em contrapartida, este fenómeno virtual facilitou a cultura do descartável das relações, isto é, tornou os laços mais frágeis e vulneráveis ao abandono.

Depois que apareceram as redes sociais, em poucos anos, mais da metade da população dos países desevolvidos e quase a metade dos países em via de desenvolvimento são internautas, ou seja, trocaram as relações reais para as virtuais. A lógica das relações virtuais é também uma lógica do neoliberalismo, isto é, a lógica de troca de favores. Uma pessoa se preocupa pela outra ou por algo na medida em que a outra pessoa ou tal produto lhe garante alguma satisfação e logo que aparecer outro produto ou outra pessoa que lhe prometa mais satisfação, pode-se descartar a primeira pessoa ou o primeiro produto, a fim de canalizar sua atenção no novo produto e assim sucessivamente. Todavia, merece sublinhar que a internet em si mesma não é causa da liquidificação da nossa sociedade, mas o uso dela sem o devido cuidado essencial, pode constituir uma das razões da liquidificação da nossa sociedade pós-moderna.

Sem dúvidas, existe um mal-estar generalizado em nossas sociedades porque a lógica do mercado e do mundo virtual deixou de lado o zelo pelos valores essênciais para uma convivência sadia. Infelizmente, vivemos numa época de inversão de valores. Hoje as pessoas são dirigidas pelo automóvel, programadas pelo computador, compradas pelo supermercado, e assistidas pela televisão enquanto pensam erroneamente que o que acontece é o contrário.

Os celulares, computadores, videogames e as televisões passaram a ser membros mais importantes das famílias. As pessoas “vivem para trabalhar” em lugar de “trabalharem para viver”, isto é, vivem para ganhar ao invés de viver por viver somente. O que os economistas neoliberais chamam de nível de vida nada mais é que o nível de consumo. Assim para eles, qualidade de vida equivale à quantidade de bens materiais. Trata-se de uma verdadeira guerra fria contra aqueles que não podem acumular bens de consumo, os pobres excluídos.

Portanto, niguém pode se dar o luxo de ignorar que a nossa sociedade capitalista neoliberal se descuidou e consequentemente carece de um resgate dos autênticos valores que definem um mundo melhor.Valores que constituem uma preciosa herança recebida dos ancestrais, como por exemplo: a proteção da vida, o respeito pela dignidade humana, a compaixão, a solidariedade, entre outros valores indispensáveis para uma convivência social e que emergem vínculos duradouros.

 

2.1 – O DESCUIDO: UMA RAIZ DA LIQUIDIFICAÇÃO MODERNA?

 

Assim como o “mal é a privação ou ausência do bem” no pensamento de Santo Agostinho, fica correto afirmar que para Leonardo Boff, o descuido seria a “privação do cuidado ou a sua ausência”. Entretanto, se as coisas no mundo moderno tomaram tal rumo, conforme a radiografia que apresentamos no item anterior, não restam dúvidas de que abandonamos aquilo que é a nossa essência: o cuidado. O que se opõe ao cuidado é o descuido ou falta de cuidado. De acordo com o nosso autor, sob o cenário neoliberal,

 

– Há um descuido e um descaso pela vida inocente de crianças usadas como combustível na produção para o mercado mundial […].

– Há um descuido e um descaso manifesto pelo destino dos pobres e marginalizados da humanidade, flagelados pela fome crônica, mal sobrevivendo da tribulação de mil doenças, outrora erradicadas e atualmente retornando com redobrada virulência.

– Há um descuido e um descaso imenso pela sorte dos desempregados e aposentados, sobretudo milhões e milhões de excluídos do processo de produção, tidos como descartáveis e zeros econômicos […].

– Há um descuido e um abandono dos sonhos de generosidade agravados pela hegemonia do neoliberalismo com o individualismo […].

– Há um descuido e descaso pela dimensão espiritual do ser humano […]

– Há um descuido e um descaso pela coisa pública […]. Há um descuido vergonhoso pelo nível moral da vida pública marcada pela corrupção e pelo jogo explicito de poder de grupos, chafurdados no pantanal de interesses corporativos.

– Há um abandono da reverência, indispensável para cuidar da vida e de sua fragilidade (BOFF, 1999, p. 18-19).

Se não tivessemos abandonnado o cuidado como uma ética essencial na convivência social, certamente o mundo não estaria em guerra contra os pobres e sim, contra a pobreza. Não teríamos criado a indústria militar para dizimar vidas inocentes. A comida não seria uma mercadoria nem a comunicação um negócio, porque continuariam a ser direitos humanos. Se fossemos cuidadosos ninguém morreria de fome nem de indigestão. As ruas não estariam lotadas de crianças em espécie de lixo. A educação não seria um privilégio de uma minoria elitista. Boff (1999), conclui ainda que por conta do descuido,

Milhões e milhões de seres humanos são condenados a viver em favelas sem qualquer qualidade de vida, sob a permanente ameaça de deslizamentos, fazendo a cada ano milhares de vítimas […] recorre-se frequentemente à violência para resolver conflitos interpessoais e institucionais, normalmente superáveis mediante o diálogo e a mútua compreensão (BOFF, 1999, p. 19).

Essa situação revela o descaso. Existe também um descuido que se refere ao mundo virtual. Não podemos negar que a internet e as redes sociais enquanto formas de comunicação tecnológica superaram muitas carências enfrentadas pelas gerações passadas, no que tange à comunicação, troca de informações e de conhecimento, além de serem fundamentais para o mundo da economia, do trabalho, da prestação de serviços, entre outros.

Contudo, não podemos ignorar também que esta revolução, em grande parte, é responsável pelo retrocesso dos relacionamentos humanos enquanto valores indispensáveis, além de promover a exclusão. O mundo virtual da internet representa “uma mudança de valores; um fosso nos separa do passado, um abismo. Caímos na virtualidade, no mundo dos signos, das imagens, onde tudo cabe, tudo se conecta, mas não aprendemos a compor, senão a competir e a excluir”. (MOSÉ, 2018, p.40). Afinal no mundo virtual, qualquer tipo de informação está na internet e o cidadão é obrigado a acessá-la para não ficar excluído. De acordo com Sella (2002), no mundo virtual os novos analfabetos são os que não têm acesso à internet, e o mundo é dividido entre internautas (os incluídos) e os não internautas (os excluídos).

Em meio ao atual cenário líquido-moderno da sociedade de consumo, a necessidade de mudança de comportamentos é urgente. Mudar de comportamento significa adotar novos “padrões de consumo e técnicas de produção e reprodução que protejam e reduzam a quantidade de resíduos lançados nos ecossistemas” (VIEIRA, 2016, p.47). Como caminho para a reversão desse cenário e para salvar a vida humana, propomos o “modo-de-ser-cuidado”. Se não aplicarmos o cuidado em todas as nossas relações e todas nossas atividades, “até meados do século XXI terão desaparecido definitivamente, mais da metade das espécies animais e vegetais atualmente existentes” (BOFF, 1999, p. 19).

 

3 – O “MODO-DE-SER-CUIDADO” SEGUNDO BOFF: CORRETIVO INDISPENSÁVEL PARA O CENÁRIO LÍQUIDO-MODERNO

 

Com o avanço do neoliberalismo, a sociabilidade, a co-responsabilidade, a cooperação e a compaixão entre os seres humanos, ficaram na coleção de contos de fadas. Infelizmente o neoliberalismo reduziu o ser humano a uma máquina de trabalho a ser vendida e explorada, matando assim a noção do ser humano como um ser de relações.

O ser humano não foi criado para o individualismo, e muito menos para a competitividade. Ele é por natureza um sujeito de relações sociais. Segundo o autor, “o ser humano é um ser de cuidado, mais ainda, sua essência se encontra no cuidado” (BOFF, 1999, p. 35), portanto é chamado a preocupar-se com as pessoas e a colocar cuidado em tudo que faz. Quem cuida não compete e nem se isola, mas, zela, se compadece e cura o objeto ou pelo sujeito cuidado.

Em nossa sociedade líquido-moderna, perpetua a vontade de trocar as relações sociais (reais) para as telescópicas (virtuais). Neste sentido, os aparelhos tecnológicos são tratados como parentes mais próximos das famílias. Não seria exagero dizer que há quem substituiu o pai por um computador, a mãe por um tablet, o irmão por um celular, ou fez do videogame seu melhor amigo. Contudo, não é segredo para ninguém que um computador e um robô não têm condições de cuidar do meio ambiente, de se compadecer sobre as desgraças de seu dono ou dos outros e de se exultar com os sucessos de um amigo. Um computador e um robô jamais farão isso porque não têm coração. “Só nós humanos podemos sentar-nos à mesa com o amigo frustrado, colocar-lhe a mão no ombro, tomar com ele um copo de cerveja e trazer-lhe consolação e esperança” (BOFF, 1999, p.99).

Entretanto, se faz necessário um mundo construído a partir de laços afetivos reais. “Esses laços tornam as pessoas e situações preciosas, portadoras de valor. Preocupamo-nos com elas. Tomamos tempo para dedicar-nos a elas. Sentimos responsabilidade pelo laço que cresceu entre nós e os outros” (BOFF, 1999, p.99). O sociólogo da liquidificação da sociedade moderna, julga urgente o resgate dos laços reais que configuram o “modo-de-ser-cuidado”. Ele observa:

 

Num ambiente líquido, imprevisível e de fluxo rápido, precisamos, mais, do que nunca, de laços firmes e seguros de amizade e confiança mútua. Afinal os amigos são pessoas com que podemos contar quando precisamos de compreensão e ajuda no caso de tropeçarmos e cairmos. (BAUMAN, 2007, p.140)

Resgatar os laços firmes significa resgatar a nossa humanidade. Os seres humanos diferentemente de todos os outros seres, são capazes de estender relações duradouras. Mas para tal atitude de desvelo que pressupõe a participação no destino do próximo e do Cosmo se faz imprescindível. Precisamos colocar cuidado na relação com todos os entes que nos circundam. Não se trata do cuidado a modo consumista que se limita apenas no cuidado com a nossa aparência por meio de exercícios físicos, maquiagens e trajes de grife, mas cuidado paciente, responsável e compassivo.

Cuidado compassivo significa mostrar compaixão a tudo o que nos circunda, valorizando e promovendo sua razão ontológica. Isso só é possível se antes de tudo, cuidarmos de nós mesmos, e, mais uma vez, merece sublinhar que cuidar de nós mesmos não se reduz ao cuidado físico, e sim, cuidado com o nosso espírito. E “cuidar do espírito significa cuidar dos valores que dão rumo à nossa vida e das significações que geram esperança para além de nossa morte. Cuidar do espírito significa colocar os compromissos éticos acima dos interesses pessoais” (BOFF, 1999,p.149).

Desta feita, o Cuidado deve ser entendido como uma nova consciência de que tudo o que existe no universo, faz parte de nós e consequentemente precisa ser tratado com devida atenção. “Nesse quadro deve emergir a nova sensibilidade e o novo ethos, uma revolução possível nos tempos da Globalização” (BOFF, 2003, p.17). Portanto, a emergência do cuidado é a emergência de um novo ethos e de acordo com o pensador brasileiro,

Por ethos entendemos o conjunto das aspirações, dos valores e dos princípios que orientarão as relações humanas para com a natureza, para com a sociedade, para com as alteridades, para consigo mesmo e para com o sentido do transcendente da existência: Deus (BOFF, 2003, p.17)

O cuidado como “modo-de-ser-no-mundo” ,na perspectiva boffiana, significa possuir a atitude de preocupar-se, inquietar-se e responsabilizar-se pelo próximo, por aquilo que está atrás, ao lado e à nossa frentecarecendo de ser cuidado. O “modo-de-ser- cuidado” implica ver a natureza e tudo o que nela existe como parte fundamental da nossa existência e cultivar uma relação de sujeito-sujeito no lugar de sujeito-objeto; uma relação de convivência ao invés de domínio sobre, uma relação de cooperação e corresponsabilidade no lugar da competitividade. O “modo-de-ser-cuidado” favorece a “integração social sem violência, o respeito, a tolerância, a adoção, enfim de uma cultura da paz e da não violência” (VIEIRA, 2016, p.48).

O nosso mundo líquido-moderno, precisa superar o individualismo, a competitividade e, sobretudo a cultura do descartável e adotar a cultura do cuidado como novo “modo-de-ser-no-mundo”. A cultura do descartável só tem espaço em nosso meio, na medida em que abandonamos o cuidado enquanto reparação e cura, quando deixamos de observar o cuidado em tudo o que estivermos fazendo. Sem o cuidado nada pode durar por muito tempo. Na falta do cuidado, tudo: a vida, a política, a democracia, a cultura, a identidade, a moral, a terra, a água, o ar, a religião, o amor, etc., se liquidifica e consequentemente passa pela experiência do descarte.

Bauman (2004) chamou de amor líquido as relações atuais desprovidas de cuidado. Porque de acordo com o sociólogo polonês, o amor verdadeiro ou amor sólido é sustentado pelo cuidado:

Amar é a vontade de cuidar, de preservar o objeto cuidado. Um impulso centrífugo, ao contrário do centrípeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir além, alcançar o que “está lá fora”. Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e não vice-versa, como no caso do desejo […]. Amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama. No amor o eu é, pedaço por pedaço, transplantado para o outro” (BAUMAN, 2004, p. 24).

Dessa forma, enquanto no mundo de consumo a solução dos problemas segue a lógica do descarte, no mundo do cuidado os problemas serão solucionados por meio de reparação, desvelo, compaixão e responsabilidade.

Para Boff, (1999), essa vontade de cuidar deve ser entendida como o “fundamento do fenômeno social e não conseqüência dele” (BOFF, 1999, p.110). O cuidado é quem dá origem à sociedade e quando a sociedade perde o cuidado, todas as instituições existentes nela perdem sua razão de existir. Na falta do cuidado o social destrói-se.

Para nossos autores, a nova lógica para um mundo sólido não deve ser “o cartesiano “cogito ergo sum: penso, logo existo” e sim, “sentio ergo sum: sinto, logo existo”, pois o cuidado não é da ordem do “logos” (razão), mas sim do “pathos” (sentimento; coração). O cuidado é uma atitude que brota do coração e não da psique. Com a razão raciocinamos e calculamos as situações, mas o sentimento que brota do coração “nos faz sensíveis ao que está à nossa volta, […]. É o sentimento que torna pessoas, coisas e situações importantes para nós. Esse sentimento profundo repetimos, se chama cuidado” (BOFF, 1999, p.100).

A sociedade sólida, que nos propomos a construir por meio do “modo-de-ser-cuidado”, deverá excluir de sua memória o capitalismo neoliberal, isto é, não deve mais ter como fim o lucro e a vontade de dominar, mas deve ser marcada por uma profunda união entre a humanidade e a natureza, ou seja, se colocar a serviço da dignidade da humanidade e da casa comum: a Gaia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS.

Ao longo da exposição, esperamos ter mostrado que falar de sociedade líquido-moderna é sem dúvidas falar do progresso no campo técnico e um grande retrocesso no campo da moral, da ética, da política, da espiritualidade. E que diante dessa situação (de crise de valores) é essencial reestruturar as nossas sociedades a partir do ethos cuidado. O cuidado enquanto desvelo, zelo, cura, e, preocupação com o destino do próximo, pretende considerar que a competitividade, a exclusão e a cultura do descartável nunca constituíram uma resposta ao progresso e muito menos estiveram na linha da essência do ser humano. Desse modo, tomá-los como um ethos social é sem dúvidas conduzir o universo rumo ao caos. Nesse caso, corrigir a direção das coisas em sociedade líquido-moderna por meio do ethos cuidado, pode ser uma alternativa melhor.

O cuidado, não deve ser condicionado pela satisfação vinda do objeto ou da pessoa cuidada. Isso seria a lógica de troca, própria do mercado de consumo. O cuidado deve obedecer à lógica da gratuidade e ser aplicado em vista a reafirmação de nossa humanidade. A pessoa deve cuidar não porque julga algo ou alguém ser importante para si, mas porque o cuidado está na linha da essência do homem e da mulher. “Não temos cuidado. Somos cuidado. Isto significa que o cuidado possui uma dimensão ontológica que entra na constituição do ser humano. É um modo-de-ser singular do homem e da mulher. Sem cuidado deixamos de ser humanos”.[8]

Portanto, é preciso colocar cuidado em tudo o que coexiste conosco no universo, independente de sua importância para conosco. Precisamos respeitar e tratar bem todos os seres que sofrem à nossa volta, humanos e não humanos, seres vivos e não vivos, a fim de deixarmos uma boa herança para as gerações futuras. Esta é a tarefa de todos nós e de cada um em particular.

REFERÊNCIAS

 

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

__________ Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001

__________ Vida Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2007

__________ Vida para o Consumo. Rio de Janeiro: Zahar, 2007

__________ Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Zahar, 2004

BOFF, Clodovis. Como trabalhar com os excluídos. Paulinas, São Paulo 1998, p. 81-106

__________ O livro do sentido. Crise: busca de sentido hoje (parte crítico analítica), Vol. 1, 1ª ed. São Paulo: Paulus, 2014.

BOFF, Leonardo. Ética e Moral: A busca dos fundamentos. Petrópolis: Vozes, 2003.

__________ Saber Cuidar: a ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 1999.

FILHO, C. B.; JUNIOR, O. G.; MOSÉ, V.; LA ROQUE, E., Política: nós também não sabemos fazer. São Paulo-SP: Vozes, 2018.

SELLA, Adriano. Globalização neoliberal e exclusão social. São Paulo-SP: Paulus, 2002.

VIEIRA, G. N., A Teoria da Complexidade de Morin na Ética Ecológica de Leonardo Boff: Aproximações teóricas por uma nova ordem planetária. São Paulo: PUC-SP, 2016.

ZILLES, Urbano. Panorama das filosofias do século XX. São P

[1] Lafim Rafael Monteiro é graduando no curso de Teologia do Instituto de Estudos Superiores de São Paulo (ITESP) e graduando em Filosofia no Claretiano Centro Universitário de São Paulo.

[2]Leonardo Boff (1938), é um teólogo, escritor e professor universitário brasileiro, um dos maiores expoentes da Teologia da Libertação, corrente progressista da Igreja Católica. É defensor dos mais pobres, excluídos e de questões ecológicas (cf. https://www.ebiografia.com/leonardo_boff/). Acesso dia 18/05/2016.

[3]Zygmunt Bauman (1927-2017) foi um sociólogo, pensador, professor e escritor polonês, uma das vozes mais críticas da sociedade contemporânea. Criou a expressão “Modernidade Líquida” para classificar a fluidez do mundo onde os indivíduos não possuem mais padrão de referência. (cf. https://www.ebiografia.com/zygmunt_bauman/). Acesso dia 18/05/2016.

[4] De acordo com Bauman, vida líquidaé uma vida vulnerável, vivida em condições de incerteza constante, em uma sociedade veloz.  “As preocupações mais intensas e obstinadas que assombram esse tipo de vida são os temores de ser pego tirando soneca, não conseguir acompanhar a rapidez dos eventos, ficar para trás”. (cf. BAUMAN, Z. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p.8).

[5]Bauman denominou Amor Líquido a fragilidade dos laços no mundo pós-modernos, queseguem a lógica do fluxo. Tudo se desfaz com facilidade e nada tem a garantia da permanência por longo tempo. De acordo com o sociólogo, os laços pós-modernos parecem feitos “sob medida para o líquido cenário da vida moderna, em que se espera e se deseja que “as possibilidades românticas” (e não apenas românticas) surjam e desapareçam numa velocidade crescente e em volume cada vez mais maior”. Trata-se de relacionamentos sem compromissos de longo prazo, que maioritariamente são mantidos por meio de conexões virtuais, bastando apenas um clique no DELETE para desfazer-se (cf.BAUMAN, Z.Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços.Rio de Janeiro: Zahar, 2004, p12).

[6]“Tecnociência” é uma terminologia criada nos finais dos anos 1970 por Gilbert Hottois, filósofo belga, para designar as atividades científicas e tecnológicas que regem os laços sociais e caracterizam o progresso da sociedade moderna (cf. <http://filosofiaemalbergaria.blogspot.com.br/2012/03/o-que-e-tecnociencia.html> acesso dia 04/05/2018).

 

[7]Filósofo existencialista nascido em Messkirch (Baden), pequeno vilarejo da Alemanhã, em 1889. Autor do Ser e Tempo (Sein und Zeit) e grande influente na filosofia do século XX (cf. ZILLES, Urbano. Panorama das filosofias do século XX. São Paulo: Paulus, 2016, p. 45.)

[8] BOFF, L., Saber Cuidar: a ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 1999, p.89-90

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