Maria : Um Testamento poético de Amor escrito com Parágrafos de Vida

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Por: Msc. Aurélio Fabião Ginja

Critico Literário e Docente Universitário

Cada coisa tua é meu minucioso

Capítulo do romance em que te releio

E guardo em parágrafos de carinho.

Na foto imutável teu olhar emoldurado

Fitando-me um tanto

Ou quanto compadecido de mim.

 José Craveirinha

 

Normalmente o testamento constitui um documento onde se inserem as disposições de ordem patrimonial de uma pessoa.  Maria soa-nos como testamento poético porque nele o poeta dispõe, por assim dizer e partilha com o leitor a herança íntima e poética do seu legado precioso: o amor , o amor pela bem amada, o amor pela pátria , o amor pela humanidade, o amor ao próprio amor!

Provavelmente, Maria seja o mais autobiográfico , o mais interior, de todos os livros que  Craveirinha trouxe à estampa.  Com  efeito  neste livro o poeta esboça continuamente e sela poeticamente  uma autobiografia íntima. Nele canta com profundidade as coisas mais simples e difíceis, momentos ímpares que marcaram o seu quotidiano : grita a dor das noites sem estrelas da prisão, divisa a transcendência do amor face à contingência da morte, advinha no meio do sofrimento a esperança e o fulgor do porvir em forma de nação. Neste sentido ,quero apressar-me a dizer ao leitor que , quando falo do cariz autobiográfico não me refiro como é obvio à autobiografia do sujeito poético, pois quem em alguma circunstância soube o que é perda dá consigo a encontrar-se com a estória ou parte da estória da sua própria alma, um contorno da geografia da sua autobiografia pessoal.

Neste sentido, admitindo que todos somos parte de um todo e por onde passa uma alma passam as dos outros, Craveirinha ao descobrir o coração nos versos de Maria, sabe que são muitos os que se vêem a sangrar ou a sorrir por entre as ondas  deste mar trasbordante de lirismo que este livro derrama.

A poesia , por  mais obscura, hermética ou metafórica  que possa ser, não necessita de se amparar em  explicações que maculem com a sua lógica e a sua ideologia o que o leitor deve encontrar  mais  com a sua sensibilidade sua intuição, a sua  perspicácia de navegante em busca dos tesouros, da aliança entre o som e sentido, nesse mar que é a língua em que se lavra a palavra.  Entretanto , ainda assim  se  o quisesse situar( caro leitor) na órbita em que estes poemas foram escritos, todos eles na peugada de Maria, cuja dimensão vivencial acompanhou  o poeta certamente ao longo do tempo indefinido em que compunha as paginas que constituem esse livro.

Logo no primeiro poema Maria , Salmo Inteiro  vemos o sujeito como que colocado diante do espelho da existência, contempla a sua vida e vê a dimensão heróica da personagem que amou e num arroubo , em tom laudatório , em versos pujantes exclama:

Maria , Salmo  Inteiro a minha tão bela esposa  Maria/sempre de humilde sorriso triste e semanalmente/nosso ósculo vigiado sabendo-me ao sal do seu choro/

 

 

 

 

 

Todo esse caminhar de poesia inicial vai-se desenvolvendo em poemas de versos mais curtos…onde nos revemos na nossa humanidade , no nosso rosto…as noites escuras do vazio ..da ausência…a solidão cósmica da travessia humana . Trata-se da situação existencial de alguém que nas encruzilhadas da vida se encontra com a dor…dessa dor absurda que invade a alma e quando parte deixa ficar em nós uma saraivada de perguntas inquietantes: A voz torna-se um clamor, mas o sujeito poético revela  a consciência  de que esta dor é a dor do mundo inteiro que não tem resposta e as lágrimas se fundem no mesmo mar de espanto. Neste sentido, o sujeito designa a morte como a grande maldita , essa que num ápice rouba-nos do convívio quotidiano os seres mais amados:

 

A Grande Maldita

 

Isso a grande Maldita

Nunca devia ter feito.

 

Chegar de surpresa

E levar-te

……………….

Sem merecer

Ainda estar

Ao teu lado.

 

A anterior alusão à transcendência do amor face à contingência da morte expressa-se nestes versos contidos :

Os astros

 

Sina

Dos antiquíssimos astros

É a sua vida já não ser

Mas deles existir

O brilho.

 

Do

Seu longínquo páramo além

Todo o espírito de Maria

Acalenta-me

Perto.

A alusão aos astros aponta-nos para um jogo de contraste extremamente tocante:um ser que está infinitamente distante e simultaneamente profundamente próximo É suficientemente distante para se transformar na dor da ausencia mas suficientemente próxima para que seu espírito acalente a alma do sujeito poético e lhe dê a dimensão da proximidade, como se a voz do poeta lograsse penetrar nos recônditos da alma da amada ausente.

Outro aspecto importante tem a ver  com o sentido de militância, que esse amor atinge.  Um amor irmanado na mesma luta , na mesma causa libertária e nessa dimensão autobiográfica com a ironia que o caracteriza eis o poeta proclamando parte dessas páginas do seu testamento poético tecido com parágrafos de vida, evocativos da prisão:

 

Minha tão simples esposa Maria!

Incansável na quotidiana viuvez por mim

Nos imitigáveis quatro anos do meu ocioso

Falecimento numa exclusiva urna de óptimo ferrolho

Com uma clássica paisagem de ferros em quadrilátero

Na hipotética janela.

 

 

Vemos que a dada altura, o sujeito poético desenvolve o  progressivo encontro com a ideia da morte , não uma morte entrevista e hipotética ou longínqua como é normalmente concebida na floração juvenil e primaveril de um poeta  que se caracteriza como uma certeza !

Neste testamento poético o autor percorre na dor , os trilhos interiores da alma e neste sentido , ao  lê-lo compreendi que efectivamente  vai ficar.

No fundo consideramos este livro um testamento poético do amor, não no sentido de ser a consumação de uma etapa especial da vida do sujeito poético mas , fundamentalmente, um balanço das experiências do sujeito poético dos encontros e desencontros tendo como pano de fundo o persistente e irrevogável amor, configurado na figura de Maria.

Maria precisa de ser saboreado, longamente degustado, com a inteligência e o coração.

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