LETRAMENTO E SUA IMPORTÂNCIA NA ALFABETIZAÇÃO.

#publicaciencia
ADRIANA RODRIGUES DE SOUZA Pedagoga e pós graduada em AEE – Atendimento Educacional Especializado (Faculdade Campus Elíseos) e Pós graduanda em Alfabetização e Letramento (Faculdade Campus Elíseos).

Resumo: O artigo em questão trata dos processos de alfabetização e letramento, abordando suas origens, conceitos e especificidades destes processos educacionais. Com isto, de forma clara apresenta a diferenciação em os respectivos processos e demonstra a necessidade de utilizá-los de forma conjunta a fim de alçar índices adequados na educação fundamental das séries iniciais. Para tanto, recorremos ao método de pesquisa bibliográfica que embasará este artigo e de forma mais sucinta abordará os objetivos aqui apresentados.

Palavras – Chave: Alfabetização e letramento, educação fundamental, séries iniciais.

Abstract: The article in question deals with literacy and literacy processes, addressing their origins, concepts and specificities of these educational processes. With this, it clearly presents the differentiation in the respective processes and demonstrates the need to use them together in order to raise adequate indices in elementary education in the initial grades. To do so, we resorted to the method of bibliographic research that will support this article and, more succinctly, will address the objectives presented here.

Keywords: Literacy and literacy, fundamental education, initial series.

INTRODUÇÃO

A educação é o pilar mestre de uma nação desenvolvida, e para que esta educação alcance um nível de qualidade adequado deve ocorrer nas séries iniciais através de uma alfabetização qualificada.

No Brasil, o processo de alfabetização inicial apresenta insucesso em sua implantação e, destarte, provocando grande defasagem na aprendizagem dos discentes das séries iniciais do ensino fundamental.

As pesquisas educacionais existentes apresentam a triste realidade que o analfabetismo funcional possui um índice extremamente alto, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Todavia, as demais regiões, apesar de índices menores, também apontam um quadro problemático.

Nesta síntese, cabe apresentarmos que as avaliações externas no Brasil tiveram início em 1990.  Atualmente existem diversos instrumentos oficiais de avaliação, como o IDEB, Pisa e o Inaf, os quais apontam que a apropriação da leitura e escrita não tem sido suficiente em alunos nos três primeiros anos do Ensino Fundamental.

A hipótese arguida pela maioria dos doutrinadores na educação que o trabalho de alfabetização nas séries iniciais do ensino fundamental é um ponto crucial, para conseguirmos alterar o quadro de analfabetismo funcional existente no Brasil. De acordo com Rojo (2004 p.1):

Se perguntarmos a nossos alunos o que é ler na escola, possivelmente estes dirão que é ler em voz alta, sozinho ou em jogral (para avaliação de fluência entendida com compreensão) e, em seguida, responder um questionário onde se deve localizar e copiar informações do texto (para avaliação de compreensão). Ou seja, somente poucas e as mais básicas das capacidades leitoras têm sido ensinadas, avaliadas e cobradas pela escola. Todas as outras são ignoradas. É o que mostram os resultados de leitura de nossos alunos em diversos exames, com o ENEM, ARESP, SAEB, PISA, tidos como altamente insuficientes para a leitura cidadã numa sociedade urbana e globalizada, altamente letrada, como a atual.

Para que tal fato ocorra há a necessidade de firmar-se um compromisso com a qualidade e definir um método de alfabetização que atenda as necessidades apresentadas. Todavia, um novo processo de projeto proposta para discussão é o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC), que é “[…] acordo formal assumido pelo Governo Federal, Estados, Municípios e entidades para firmar o compromisso de alfabetizar crianças até, no máximo, 8 anos de idade, ao final do ciclo de alfabetização.” (Caderno de apresentação do PNAIC, 2012, p. 5).

  1. O PACTO NACIONAL DE ALFABETIZAÇÃO NA IDADE CERTA

O Pacto resta apoiado em quatro eixos de atuação, os quais demonstram a real dimensão de sua ação de acordo com o art. 6º da Portaria nº 867 do Ministério da Educação: I- formação continuada presencial para os professores alfabetizadores e seus orientadores de estudo; II – materiais didáticos, obra literárias, obras de apoio pedagógico, jogos e tecnologias educacionais; III – avaliações sistemáticas e IV – Gestão, controle social e mobilização.

Os objetivos do PNAIC restam dispostos no art. 5º desta mesma portaria, conforme segue:

I – garantir que todos os estudantes dos sistemas públicos de ensino estejam alfabetizados, em Língua Portuguesa e em Matemática, até o final do 3° ano do ensino fundamental; II – reduzir a distorção idade-série na Educação Básica; III – melhorar ao índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB); IV – contribuir para o aperfeiçoamento da formação dos professores alfabetizadores; V – construir propostas para a definição dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças nos três primeiros anos do ensino fundamental.

  1. A ORIGEM DA ALFABETIZAÇÃO

Devido às necessidades de comunicação existentes na humanidade surge, de forma inicialmente primitiva, a leitura e a escrita, Cagliari (1998, p.14) descreve adequadamente esta origem:

De acordo com os fatos comprovados historicamente, a escrita surgiu do sistema de contagem feito com marcas em cajados ou ossos, e usados provavelmente para contar o gado, numa época em que o homem já possuía rebanhos e domesticava os animais. Esses registros passaram a ser usados nas trocas e vendas, representando a quantidade de animais ou de produtos negociados. Para isso, além dos números, era preciso inventar os símbolos para os produtos e para os proprietários.

Com o crescimento demográfico há a necessidade de transmissão deste conhecimento de leitura e escrita para novas gerações, na afirmação de Cagliari (1998, p.15) “O longo do processo de invenção da escrita também incluiu a invenção de regras de alfabetização, ou seja, as regras que permitem ao leitor decifrar o que está escrito e saber como o sistema de escrita funciona para usá-lo apropriadamente”.

Contudo, a época a alfabetização era um processo mecânico, ensinando-se apenas o extremamente necessário e usual, tal fato é explicado por Cagliari (1998, p.14): “nessa época de escrita primitiva, ser alfabetizado significava saber ler o que aqueles símbolos significavam e ser capaz de escrevê-los, repedindo um modelo mais ou menos padronizado, mesmo porque o que se escrevia era apenas um tipo de documento ou texto”.

O processo de alfabetização chega ao Brasil, iniciado pelos jesuítas, mas mantendo o mesmo processo mecanicista, conforme aponta relato de Ramos (1953, p.102):

Enfim consegui familiarizar-me com as letras quase todas. Aí me exibiram outras vinte e cinco, diferentes da primeira e com os mesmos nomes delas. Atordoamento, preguiça, desespero, vontade de acabar-me. Veio terceiro alfabeto, veio quarto, e a confusão se estabeleceu, um horror de quiproquós. Quatro sinais com uma só denominação. Se me habituasse às maiúsculas, deixando as minúsculas para mais tarde, talvez não me embrutecesse. Jogaram-me simultaneamente maldades grandes e pequenas, impressas e manuscritas.

  1. O CONCEITO DE ALFABETIZAÇÃO

De forma sucinta podemos conceituar a alfabetização como o processo que leva à aprendizagem da leitura e da escrita, destarte, considerar-se-á alfabetizado o individuo que possui domínio das habilidades básicas de leitura e escrita.

Na visão de Val (2006, p.19), tem-se:

[…] pode-se definir alfabetização como o processo específico e indispensável de apropriação do sistema de escrita, a conquista dos princípios alfabético e ortográfico que possibilitem ao aluno ler e escrever com autonomia. Noutras palavras, alfabetização diz respeito à compreensão e ao domínio do chamado “código” escrito, que se organiza em torno de relações entre a pauta sonora da fala e as letras (e ouras convenções) usadas para representá-la, a pauta, na escrita.

Por seu turno, Perez (2002, p.66) conceitua a alfabetização da seguinte maneira:

[…] é um processo que, ainda que se inicie formalmente na escola, começa de fato, antes de a criança chegar à escola, através das diversas leituras que vai fazendo do mundo que a cerca, desde o momento em que nasce e, apesar de se consolidar nas quatro primeiras séries, continua pela vida afora. Este processo continua apesar da escola, fora da escola paralelamente à escola.

Desta feita, de acordo com os conceitos expostos, podemos afirmar que a alfabetização é um processo de ensino aprendizagem que ultrapassa os limítrofes do período escolar. Corroborando com tal afirmação citamos Vygotsky (1991, p.94):

O ponto de partida dessa discussão é o fato de que o aprendizado das crianças começa muito antes delas frequentarem a escola. Qualquer situação de aprendizado com a qual a criança se defronta na escola tem sempre uma história prévia. Por exemplo, as crianças começam a estudar aritmética na escola, mas muito antes elas tiveram que lidar com operações de divisão, adição, subtração e determinação de tamanho. Consequentemente, as crianças têm a sua própria aritmética pré-escolar, que somente psicólogos míopes podem ignorar.

  1. MÉTODOS DE ALFABETIZAÇÃO

Método é o modo de agir, proceder, o meio, ou seja, o planejamento de determinadas operações a fim de alcançar determinado fim específico.

Em relação à alfabetização, devemos enfatizar que determinado método utilizado pode ser bem sucedido em determinada turma ou aluno, por outro lado, pode não se adequar a uma turma ou aluno diferente, posto que, cada criança tem seu tempo e modo de aprendizagem. De acordo com Vygotski (1991, p.99): “[…] o aprendizado humano pressupõe uma natureza social específica e um processo através do qual as crianças penetram na vida intelectual daquelas que as cercam”. Carvalho (2008, p.17), por seu turno ao se referir aos métodos de alfabetização afirma:

Quem se propõe a alfabetizar baseado ou não no construtivismo, deve ter um conhecimento básico sobre os princípios teórico-metodológico da alfabetização, para não ter que inventar a roda. Já não se espera que um método milagroso seja plenamente eficaz para todos. Tal receita não existe.

No processo de alfabetização inicial as crianças apresentam a curiosidade e disposição para apropriação da leitura e da escrita, destarte, torna-se o momento crucial estimulá-las e até habitua-las ao contato com a escrita e a leitura, sejam através de leituras de histórias, poemas, cânticos, ou outros recursos disponíveis e adequados.

Neste ponto encontrasse a responsabilidade, ímpeto e compromisso do docente em relação à alfabetização e letramento da criança, pois sua atuação tornar-se-á estimuladora, ou não, conforme sua atuação qualificada, Vygotsky (1991, p.96) afirma:

[…] Ela é a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes.

Os métodos de alfabetização existente podem ser divididos em dois grandes grupos: sintéticos ou globais. Todavia, o docente deve ter pleno conhecimento no método utilizado para propiciar o processo de ensino aprendizagem adequado. Neste contexto, Carvalho (2008, p.46) afirma:

Para a professora, seja qual for o método escolhido, o conhecimento das suas bases teóricas é condição essencial, importantíssima, mas não suficiente. A boa aplicação técnica de um método exige prática, tempo e atenção para observar as reações das crianças, registrar os resultados, ver o que acontece no dia-a-dia e procurar soluções para os problemas dos alunos que não acompanham.

  • MÉTODOS SINTÉTICOS

Os métodos sintéticos atuam com o objetivo de que o aluno seja alfabetizado através da decodificação dos sons que as letras possuem, ou seja, o grafema fonema. Iniciando de palavras curtas e utilizando de recursos, ou não, de cartilhas. Fazem parte deste método a soletração, método fônico, silabação, método da abelhinha e método da casinha feliz. Todos estes partem da premissa de ensino da soletração para a consciência fonológica.

Vale ressaltar, que o docente quando aplica este método, deve se atentar a questão dos sons de determinadas letras junto de outras acabam por emitir sons diferenciados que devem ser trabalhados com cautela durante o processo de alfabetização. Carvalho (2008, p.28) afirma:

Um cuidado que deve ser observado na aplicação dos métodos fônicos decorre da própria natureza do Português, língua alfabética na qual uma letra pode representar diferentes sons conforme a posição que ocupa na palavra, assim como um som pode ser representado por mais de uma letra, segundo a posição. Assim, não basta ensinar o som da letra em posição inicial da palavra, mas é preciso mostrar os sons que as letras têm em posição inicial, medial (no meio) ou final da sílaba.

  • MÉTODOS GLOBAIS

Os métodos globais, também denominados métodos analíticos, parte da premissa de alfabetização e letramento da criança através de histórias, ou seja, busca estimular na criança o gosto pela leitura. Consideram-se globais os seguintes métodos: método de conto; método natural de Freinet; etapas de uma unidade; método ideovisual de Decroly; metodologia de base linguística ou psicolinguística; método natural; alfabetização a partir de palavra-chave; método de Paulo Freire; e síntese dos passos de aplicação. A semelhança destes métodos é que ao partirem de textos, histórias ou contos buscam chegar as letras, ou seja, partindo do máximo ao mínimo.

  • APLICAÇÃO DOS MÉTODOS

Conforme exposto a aplicação do método irá de acordo com a verificação do docente em relação ao processo de ensino aprendizagem da turma ou aluno em questão.

Deste modo, o professor poderá aplicar um ou outro método de alfabetização e letramento e, até mesmo, utilizar-se dos dois métodos unificados, ou seja, métodos global-sintéticos ou métodos analítico-sintéticos. Quanto a esta unificação dos métodos Carvalho (2008, p.18) esclarece:

São os chamados métodos analítico-sintéticos, que tentam combinar aspectos de ambas as abordagens teóricas, ou seja, enfatizar a compreensão do texto desde a alfabetização inicial, como é próprio dos métodos analíticos ou globais, e paralelamente identificar os fonemas e explicitar sistematicamente as relações entre letras e sons, como ocorre nos métodos fônicos.

 

Desta feita, o docente deve possuir pleno domínio em ambos os métodos para que o processo de alfabetização e letramento ocorra de forma eficaz e eficiente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do exposto no presente artigo notório que há um longo caminho a ser percorrido por nosso País para alcançar um nível de excelência no que tange a alfabetização e o letramento dos nossos cidadãos.

Todavia, apresentamos métodos e uma análise sucinta da importância do docente em possuir o domínio de qualquer que seja o método aplicado a fim de alcançar o objetivo de alfabetização e letramento adequado.

Por fim, resta esclarecido que a questão de evolução de excelência da alfabetização no Brasil é um processo que conta com o apoio das políticas públicas, devendo, obviamente, os docentes estarem aptos e possuírem pleno domínio da função e métodos de alfabetização e letramento, bem como, a necessidade da participação dos pais e da sociedade para que ocorra a evolução deste quadro, assim atingindo números satisfatórios de uma nação desenvolvida.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Educação. Política Nacional de Educação Infantil: pelo direito das crianças de zero a seis anos à Educação. Brasília: MEC/ SEB,2005.

CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetizando sem o Bá-Bé-Bi-Bó-Bu: Pensamento e Ação no Magistério. 1. Ed. São Paulo: Scipione, 1998.

CARVALHO, Marlene. Alfabetizar e Letrar: Um Diálogo entre a Teoria e a Prática. 5. Ed. Rio de Janeiro Vozes, 2008.

CORREA, Djane Antonucci, SALCH, Bailon de Oliveira e et. al. Práticas de Letramento: Leitura, escrita e discurso. 1. Ed. São Paulo: Parábola editorial, 2007.

MOREIRA, Daniel Augusto. Analfabetismo Funcional: O Mal Nosso de cada Dia. 1. Ed. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.

PAIVA, José Maria de. Educação Jesuítica no Brasil Colonial. In: LOPEZ, Eliane Marta Teixeira (org.). 500 Anos de Educação no Brasil. 3. Ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

RAMOS, Graciliano. Infância. 3. Ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953.

SOARES, Magda. Letramento: Um tema em três gêneros. 2. Ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

SOARES, Magda. Letramento: Um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

SOARES, Magda. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Revista Brasileira de Educação, Abr/2004.p.105-124.

SOARES, Magda. Alfabetização e letramento: Caminhos e descaminhos. Artigo publicado pela Revista Pátio – Revista Pedagógica de 29 de fevereiro de 2004, pela Editora Artmed.

SOARES, Magda. Aprender a escrever, ensinar a escrever. Edwiges Zaccur (Org.). A magia da linguagem. Rio de Janeiro: DP&A: SEPE, 1999. p. 49-73.

SOARES, Magda. Formação de rede: uma alternativa de desenvolvimento profissional de alfabetizadores/as. Cadernos Cenpec. São Paulo, v.4, n.2, p.146-173, dez. 2014.

VAL, Maria da Graça Costa. O que é ser alfabetizado e letrado? 2004. In: CARVALHO, Maria Angélica Freire de (org.). Práticas de Leitura e Escrita. 1. Ed. Brasília: Ministério da Educação, 2006.

VIGOTSKI, Lev Semenovitch. Imaginação e criação na infância. Apresentação e comentários Ana Luiza Smolka.Tradução Zoia Prestes.São Paulo:Ática, 2009.

VIGOTSKI, Lev Semenovitch. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

VIGOTSKI, Lev Semenovitch. Pensamento e linguagem. Versão para eBooksBrasil. org Disponível em: www.jahr.org,2002. Acesso em 18 nov. 2018.

 

Hits: 57

Add a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *