DA CRISE DE VALORES AOS VALORES EM CRISE E O PAPEL DA EDUCAÇÃO

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Por: Filipe Serafim Mapilele

A progressão histórica da ideia dos valores, vem desde a época clássica ancorada à ideia da ética e moral. Enquanto na época clássica tínhamos, um paradigma filosófico virado para a vertente ética, onde, tinha-se a vontade de edificar uma sociedade alicerçada em princípios éticos, onde encontramos grandes pensadores como Aristóteles, que dirão que a felicidade humana só se encontra na Polis (cidade), onde há leis e princípios morais que permitam a sã vivência. Passando para o período medieval, onde a ideia de Deus, era forte e tido como dador da vida, a quem se deve toda veneração. Aliás, tinha-se a ideia de que Dele recebemos a vida e para ele devemos viver, nele há todo o descanso e realização da vida humana – diz Santo Agostinho “Criastes-nos para vós Senhor, e o nosso coração não ficará tranquilo enquanto não repousa em vós”. Estamos face a um paradigma em que a vida está condicionada a um estilo ‘se observares estas regras, viverás, se não as observar, morrerás’.

Ora, já com o advento da modernidade, encontramos uma destruição e rejeição das tradições anteriores (clássica e medieval), passando a entrar num paradigma de valorização científica e consequentemente, ridicularização do ser humano. É neste sentido que surgem pensadores como Karl Marx a criticarem severamente a instauração do ‘capitalismo’, pois, este, explora excessivamente o ser humano. Já hoje em nossos dias (época contemporânea), urge a emergência de construção de um paradigma sapiencial que tenha em vista a busca dos valores humanos, inclusive em ambientes científicos. Vai propor Edgar Morin, a ideia de uma ciência com consciência, o que em nossa opinião traduziríamos em ver ‘a filosofia e a ciência de mãos dadas’.

Vivemos um tempo em que emergiram escancaradamente as consequências de um mundo em que a fronteira entre o bem e o mal se dilui numa espécie de uma porosa “pedra-pomes” axiológica. Conhecem-se, agora, urbi et orbi situações indesejáveis e queda de falsos ícones resultantes da deficiente conjugação entre direitos e deveres, do enfraquecimento do sentido de responsabilidade e da incapacidade de os poderes públicos responderem em plenitude às exigências que impende sobre todo e qualquer bem económico ou social. Estamos a compreender, de um modo flagrante, que nunca se deve confundir a ideia da ética com a ideia da moralidade. Ética é cada um confrontar-se com o seu dever. Moralidade é cada um ocupar-se com o dever dos outros. Muitos pregam a dita moralidade (para os outros) e esquecem o exemplo e a autenticidade dos valores quando se trata de praticarem o que aos outros exigem. Por palavras diferentes: não basta uma ética da terceira pessoa, é imprescindível uma ética da primeira pessoa. Ficou também provado com esta crise global que não bastam as leis se as acções das pessoas não radicarem princípios éticos sólidos. É que nenhuma lei proíbe o egoísmo, a ganância, a mentira, o desprezo, o ódio, a malvadez, como infelizmente se constata. Esta crise mostra também os custos humanos e sociais de se olhar para as pessoas como meios ou instrumentos e não como fins, e de se terem rompido os limites da prudência e do risco.

No plano da vida económica e social, o princípio fundamental é o princípio da centralidade e dignidade da pessoa humana, princípio, fim e sujeito de todas as instituições. Associado a estes princípios está o direito à propriedade privada mediante o trabalho, mas que não sendo absoluto e intocável está subordinado ao direito ao uso comum. Logo, a propriedade privada é um meio, não um fim. Desempenhando uma insubstituível função social, daí decorre que sobre ela impenda uma verdadeira e justificada “hipoteca social”. Claro está que nos tempos de hoje há que reler este princípio à luz das novas formas de propriedade do conhecimento, de novos recursos técnicos e da globalização. Ao mesmo tempo, premiou-se o arrivismo, o mediatismo inconsequente, a visão de curto prazo. Como na política onde em geral se governa a olhar para umas próximas eleições e não para as próximas gerações, na vida das empresas o gestor passou a olhar tão-somente para o seu curto mandato com a preocupação de maximizar resultados, arrecadar prémios de gestão, ter boa imagem mediática, mesmo que toda essa visão imediata e táctica prejudique a perspectiva de mais longo prazo e estratégica da vida da empresa. Em síntese, dêem-se as voltas que se derem, não há “soluções técnicas” para “défices éticos”. Sob pena de recidivas cada vez mais dolorosas…

A Educação do futuro tem de se fazer em nome de valores: carácter, trabalho, humanismo, consciência, afecto, com o imperativo da memória e o incitamento do futuro. A primeira como o celeiro da nossa aprendizagem e da experiência do erro. A segunda transportando a vontade, exigindo a autenticidade, reclamando o discernimento. A Escola (e não só) tem vivido sufocada pelo excesso de presentismo. Entre o seu passado e o futuro necessário, instalou-se a ditadura do presente e do curto prazo. Entre a memória e a utopia programou-se a aparência. Entre o que já foi e o que ainda não se sabe se vai ser inventou-se o simplesmente estar. A Escola como espaço de ética intensiva. A ética das virtudes: tem origem no pensamento de Aristóteles que estabeleceu os fundamentos de uma ética centrada na pessoa, no seu carácter e na sua capacidade de julgar actos morais e no facto de a formação do carácter começar antes de o ser humano racionalizar as suas acções. Uma acção eticamente correcta é a que é encetada pelas pessoas através de um carácter recto e disposição para a prática do bem, da justiça e da equidade. As virtudes são intelectuais (sabedoria, prudência, temperança, sentido de justiça) e morais (honestidade, gratidão, lealdade, humildade, paciência, …). Estas virtudes não são necessariamente inatas, mas adquiridas pela educação, aprendizagem e relacionamento. Hoje tende-se a assimilar estas virtudes à expressão de “boas práticas”.

A ética das virtudes destaca, assim, o papel preponderante da responsabilidade individual. Ética dos deveres: Bem sei que os direitos são mais aclamados, mas os deveres são mais estimados. Os direitos dividem-se na partilha dos seus frutos, mas os deveres multiplicam-se no carácter das nossas atitudes. Os direitos convivem melhor com a norma, mas os deveres enraízam-se mais na consciência. Os direitos alimentam-se mais da informação, os deveres precisam sobretudo da formação. Em suma: o maior alimento do direito é o dever. Educar os cidadãos do próximo futuro na base de um “compacto” de direitos, não se lhes incutindo o património dos deveres, não é a via mais adequada para esse desiderato. Educar para alguns direitos, secundarizando ou ignorando outros não menos importantes, é uma forma enviesada que cria mentalidades parciais e não promove o homem no seu todo. Uma ética que passa, simultaneamente, por um conjunto de valores e por um conjunto de saberes em que a Escola na sua acção formativa assuma uma especial responsabilidade. A sabedoria é a compreensão dos limites.

Termino citando parte da carta que A. Lincoln escreveu ao professor do seu filho: “Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos. Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros, ensine-o… a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram. Ensine-o a ouvir a todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando está triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram. Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão. Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço, deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso”.

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