A IMPORTÂNCIA DOS LABORATÓRIOS FITOSSANITÁRIOS NA CADEIA PRODUTIVA

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Autor: Dr. Fernando Javier Sanhueza Salas

Na última metade do século XX, o Brasil se tornou um dos maiores produtores de alimento do mundo. No entanto, de
maneira ardilosa temos sofrido com graves problemas, pragas e doenças, que ano após ano vem surgindo e se estabelecendo em solo nacional.

Alguns milhões de dólares são perdidos anualmente graças à entrada de um novo patógeno ou inseto, o que compromete a produtividade do “celeiro do mundo”. O dano após a entrada e disseminação de algum novo agente patogênico, dentro de um agroecossistema pré-estabelecido, torna-se avassalador pelo desequilíbrio causado e pela total ignorância do problema, prejudicando o produtor e toda uma cadeia produtiva. Alguns exemplos recentes que podem ser destacados são: Helicoverpa armigera, Bemisia tabaci Biotipo Q, Drosophila suzuki, Tomato Yellow Leaf Curl Virus, Tomato Chlorosis Virus, entre inúmeros outros, muito bem relacionados na Instrução Normativa nº 38, de 1º de Outubro de 2018.

Entre as estratégias de defesa vegetal adotadas por alguns países vale à pena destacar, as praticadas na Nova Zelândia (New Zealand Food and Safety AuthorityNZFSA) e no Chile (Servício Agrícola y Ganadero – SAG). No entanto, estes países são muito beneficiados pela sua geografia, tratando-se de uma ilha cercada pelo Oceano Pacífico e de uma longa faixa de terra cercada pela Cordilheira dos Andes de um lado e pelo mesmo oceano do outro. Os Estados Unidos (USDA – Animal and Plant Health Inspection Service – APHIS) apesar de seu tamanho continental tem áreas definidas de produção (cinturões) de acordo com as condições de solo e clima, facilitando medidas de detecção e controle. Porém, todas estas políticas de defesa agropecuária têm em comum uma legislação rígida, ações com rápida execução e sanções regulatórias ríspidas. Hoje em dia a globalização e a facilidade de transporte ao redor do mundo, o clima propício e o próprio tamanho continental do Brasil nos deixa desconfortáveis quanto à possibilidade da entrada de novos patógenos e pragas.

Uma das principais bases de defesa da agricultura que qualquer país deve ter são os laboratórios fitossanitários, responsáveis pela detecção e pela certificação na introdução de materiais provenientes de importação e para exportação, tanto para consumo quanto para o plantio (sementes, bulbos, tubérculos, rizomas etc). No Brasil, cabe esta responsabilidade ao VIGIAGRO (Vigilância Agropecuária Internacional) órgão da Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA/MAPA).

No caso do tomate (Solanum lycopersicon) a produção de sementes de cultivares de polinização aberta tanto para mesa como para processamento é feita em plantio rasteiro, resultando num custo mais baixo com boa produtividade e razoável qualidade. Porém, mesmo com o aumento desta prática, o Brasil importa praticamente todas as sementes de cultivares híbridas F1 de países como Japão, EUA e Chile (maior produtor mundial de sementes), entre outros, totalizando 24 países. Atualmente o Brasil planta uma área total de 37.398 ha, sendo que 18.674 ha destinados para mesa e 18.724 ha para indústria, com produção total em 2017 de 3.967.468 toneladas. Considerando-se o uso de 30g de sementes para o plantio de um hectare de tomate, estima-se um número de sementes/ano de 1.246 mil, para o plantio e produção de mudas. Deste montante uma ínfima amostragem é enviada aos laboratórios de fitossanidade, tornando-as pouco significativas no que diz respeito à quantidade (normalmente são enviadas 300 sementes para detecção de contaminações) e o modo de amostragem utilizado e mesmo assim muitas vezes patógenos podem ser detectados.

Algumas perguntas muitas vezes nos preocupam principalmente pelo fato do número de pontos de entrada de material no nosso país. Segundo a VIGIAGRO existem 106 pontos de vigilância internacional que são portos, aeroportos, pontos de fronteira e aduanas interiores. Atualmente existem 6 LANAGROS (Laboratórios Nacionais Agropecuários/MAPA) e suas unidades laboratoriais avançadas estão localizados em todas as regiões do Brasil: Norte – Belém/PA; Nordeste – Recife/PE Centro-Oeste – Goiânia/GO; Sudeste – Pedro Leopoldo/MG, possuindo unidades avançadas em Belo Horizonte, Andradas e Varginha; e em Campinas/SP, com unidade avançada em Jundiaí; Sul – Porto Alegre/RS, com unidade avançada em São José/SC. Além destes, temos os laboratórios credenciados que tem de cumprir inúmeras exigências para entrar no cadastro do MAPA, entre elas seguir as normas da ISO 17025, exclusiva para laboratórios. Apesar do esforço e eficiência de diversos laboratórios de diagnóstico fitossanitário, pertencentes ao governo, a universidades ou mesmo laboratórios particulares, nos deparamos com um número pequeno para cumprir com a demanda. Atualmente, na página oficial do MAPA podemos contar com apenas sete Laboratórios Credenciados, realizando análises para todo o Brasil, estes se distribuem em cinco Estados e são i) Instituto Mineiro de Agropecuária (MG) em Minas Gerais; ii) Centro de Diagnóstico “Marcos Enrietti”- CDME, no Paraná; iii) Laboratório de Diagnóstico Fitossanitário-UFRRJ, no Rio de Janeiro; iv) Agronômica – Laboratório de Diagnóstico Fitossanitário e Consultoria; v) UNISIC – Central Analítica, ambos no Rio Grande do Sul; vi) Clínica Fitopatológica – Instituto Agronômico de Campinas e o Instituto Biológico de São Paulo, ambos no Estado de São Paulo e pertencentes a Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA).

Entre os problemas que passam despercebidos, com ênfase na tomaticultura, os fitovírus se destacam por sua difícil detecção macroscópica, sendo identificados quando as sementes já se encontram em campo com as plantas manifestando sintomas, convertendo-se potencialmente em fontes de inóculo para que o patógeno consiga infectar outra hospedeira, principalmente se este for transmitido por algum inseto-vetor e desta forma, somente posteriormente é caracterizada, trata-se de uma ameaça invisível que devia ser coibida na entrada ao Brasil. Entre as espécies de vírus que infectam a cultura de tomate e não foram descritas no Brasil (A1) (MAPA): Pepino mosaic virus (Potexvirus); Tomato black ring spot virus (Nepovirus), Tobacco rattle virus (Tobravirus); Tomato ringspot virus (Nepovirus); Pelargonium zonate spot virus (Anulavirus); Tomato yellow leaf curl virus (Begomovirus). Porém, as famílias mais importantes que resultam em redução drástica de produtividade são: Tospoviridae:Orthotospovirus (complexo do vírus do “vira cabeça” do tomateiro) e Geminivirus:Begomovirus, respectivamente. No Brasil, as espécies já relatadas de tospovírus, na cultura de tomate são: Tomato spotted wilt virus (TSWV); Tomato chlorotic spot virus (TCSV); Groundnut ringspot virus (GRSV) e finalmente o Chrysanthemum stem necrosis virus (CSNV), que apesar de não serem transmitidos por semente a alta incidência é o resultado da associação do vírus com o vetor (tripes), que adquirem o vírus na fase larval e permanece durante toda a vida no corpo do inseto, com característica circulativa propagativa. Outro importante fator é a polifagia dos tripes que podem se alimentar de inúmeras espécies botânicas e se mantem em campo quando em condições ambientais favoráveis, se hospedando em inúmeras hospedeiras alternativas.

Segundo a literatura, até a década de 1970 somente uma espécie de Begomovírus, transmitida por Bemisia tabaci era descrita no Estado de São Paulo (Tomato golden mosaic virus – ToGMV), no entanto, alguns surtos foram detectados em 1997 envolvendo o Tomato yellow vein streak virus (TYVSV). Atualmente temos 11 espécies de Begomovirus relatadas no Brasil, sendo: Tomato golden mosaic virus (TGMV); Tomato rugose mosaic virus (ToRMV); Tomato chlorotic mottle virus (ToCMoV); Tomato yellow spot virus (ToYSV); Tomato severe rugose virus (ToSRV); Tomato common mosaic virus (ToCmMV); Tomato mild mosaic virus (ToMlMV); Tomato yellow vein streak virus (ToYVSV); Tomato interveinal chlorosis virus (ToICV); Tomato mottle leaf curl virus (TMoLCV) e o Tomato golden vein virus (TGVV), além de um outro fitovírus pertencente ao Gênero Crinivirus o Tomato chlorosis virus (ToCV).

Inúmeras empresas de sementes não enviam o material para certificar visto que depois de introduzida e consolidada comercialmente, a cultivar, não passa por certificação. Entre os motivos da não indexação do material, destacamos: o elevado custo das análises e o custo da semente de uma variedade melhorada (muitas vezes o preço de cada semente gira em torno de R$5,00). No entanto, muitas delas realizam a produção de sementes em outros países e a introduzem como sendo nacional, no total 24 países com seis de maior importância (mostrados no mapa) são os produtores das sementes comercializadas no país. Em trabalhos desenvolvidos nos países que realizam a multiplicação, nota-se a preocupação com novas viroses que são transmitidas pelo material no trato cultural e enxertias realizadas, sendo que o problema não se torna mais sério porque este processo de multiplicação, melhoramento e obtenção de sementes se dá em cultivo protegido, ou seja, sem a presença de insetos-vetores.

Apesar do esforço das autoridades em coibir e minimizar o trânsito de material propagativo e/ou sementes, nem sempre é possível detectar sementes e desta maneira os vírus podem ser introduzidos, principalmente pela reduzida fiscalização quando se leva em consideração o grande número de pontos de entrada, reduzido número de laboratórios para envio das amostras para análise, além da falta de informação e de sanções mais severas, se constituem em fatores primordiais na introdução de patógenos, atualmente o que ocorre é apenas a perda e inutilização do material.

A necessidade de credenciar novos laboratórios, aumento na rigidez das leis que regem a introdução de material vegetal como multas e até medidas judiciais contra os passageiros ou transeuntes que introduzam material sem certificação, assim como é feito nos países tidos como modelos em vigilância agropecuária, necessitam ser repensados urgentemente, claro acompanhado da criação de um sistema menos burocrático e mais informatizado, estas medidas seriam um ótimo começo para evitar o número crescente de fitovírus interceptados no Brasil, muitas vezes tardiamente e inclusive já presentes em solo nacional.

Quadro 1 – Lista de vírus emergentes presentes nos seis países com maior produção de sementes de tomate para o Brasil.

Vírus

Grupo

Países

EUA

Israel

França

Itália

Espanha

China

Alfafa mosaic virus

Alfamovirus

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Chilli veinal mottle virus

Potyvirus

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Cucumber mosaic virus

Cucumovirus

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Parietaria mottle virus

Ilarvirus

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Pelargonium zonate spot virus

Anulavirus

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Pepino mosaic virus

Potexvirus

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Potato virus A

Potyvirus

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Potato virus H

Carlavirus

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Potato virus S

Carlavirus

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Potato virus Y

Potivirus

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Rehmania mosaic virus

Tobamovirus

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Southern tomato virus

Amalgovirus

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Tobacco mosaic virus

Tobamovirus

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Tobacco vein banding mosaic virus

Potyvirus

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Tomato brown rugose fruit virus-Jordania

Tobamovirus

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Tomato chlorosis virus

Closterovirus

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Tomato infectious chlorosis virus

Closterovirus

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Tomato marchitez virus

Torradovirus

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Tomato mosaic virus

Tobamovirus

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Tomato mottle mosaic virus

Tobamovirus

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Tomato necrosis spot virus

Ilarvirus

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Tomato necrotic dwarf virus

Torradovirus

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Tomato spotted wilt virus

Tospovirus

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Tomato torrado virus

Torradovirus

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Tomato yellow leaf curl virus

Begomovirus

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Tomato yellow leaf curl virus – Israel

Begomovirus

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Tomato zonate spot virus

Tospovirus

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Turnip yellows virus

Polerovirus

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*: não presente até o momento no país.

 

 

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